Blog de Vida

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Cotidiano XI Setembro 29, 2008

Arquivado em: Silvia Viva — silviaribeiro @ 3:18 am
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Num domingo, fomos a São Roque, casa de minha mãe. Ao chegar, pedi algo a Silvia que estava em sua bolsa. Bolsa? Aquela onde estavam todos documentos (do carro também), chaves, celular etc.? Ela havia esquecido em São Paulo, sobre o muro (baixo, aliás) da nossa casa. O Leo, meu compadre, saiu desesperado para encontrar o objeto em questão. Encontrou-o com a nossa vizinha, Marta.

 

O cheiro Setembro 26, 2008

Arquivado em: Silvia Viva — silviaribeiro @ 12:38 pm
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Odeio perfume. O perfume dá às mulheres aquele cheiro de linha de produção, como se algum homem quisesse se apossar e compreender a essência delas numa fórmula elementar. Fazê-las todas uniformemente óbvias. Meus sentidos me maltratam. Quero aquele odor que nunca mais sentirei. O cheiro de Silvia foi o primeiro tentáculo que me envolveu. Rápido. O cheiro (quando somos íntimos, o odor vira cheiro) de cada mulher é único. E dá uma dimensão única da existência. O cheiro de Silvia está em mim. O cheiro que virou meu oxigênio por tantos anos. Para revivê-lo e respirar novamente, precisaria descobrir algo na natureza equivalente, que dê o choque no meu inconsciente, que me faça inalá-lo sem me preocupar com a procedência. Mas nunca senti nada com a menor proximidade dessa essência. E acredito que isso possa se perder com o tempo. Ou encontrarei tal essência surpreendentemente numa rua qualquer, velozmente, perceptível, inalando enquanto evapora volatilmente me aturdindo. Ou simplesmente viverei com tal sensação enterrada em minha alma.

 

Cotidiano X Setembro 23, 2008

Arquivado em: Silvia Viva — silviaribeiro @ 10:03 pm
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Silvia tinha quase 6 (seis) graus de miopia. Variavelmente eu limpava as lentes de seus óculos pois ficavam recobertas por uma camada espessa de gordura. Ela nunca se lembrava de limpá-las.

 

Penélope Setembro 21, 2008

Arquivado em: Silvia Viva — silviaribeiro @ 4:15 pm
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Ela tecia. Enquanto eu guerreio. Enquanto eu navego. Lentamente ela tecia. Eu quero chegar a minha ilha. Enquanto ela tecia. Lentamente eu chego levado pelos caprichos das intempéries. E o capricho do deus espaço. Enquanto ela tecia. Eu me alongo na viagem. O tempo é feroz. O espaço, voraz. Enquanto ela tecia. Todo meu engenho tecendo linhas tortuosas, que me enredam a alma, turvam os olhos com a distância de minha ilha. Enquanto ela tecia. Fiel e lentamente. Eu em guerra com minha pequeneza no oceano. Caronte sorri. Eu o engano. Enquanto ela tecia. A ilha já vai próxima. Vou aportar. Tomar minha terra. Enquanto ela tecia. Sento a seus pés. Cansado. Morto. Ela me beija. Me afaga. Eu estou em minha ilha. Enquanto ela tecia.

 

Silvia costurou durante a gravidez de Heitor uma manta em patchwork, que ficou inacabada. Minha irmã está arrematando a manta.

 

Sob os céus de Lisboa (Lisbon history) Setembro 19, 2008

Arquivado em: Silvia Viva — silviaribeiro @ 1:53 pm
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Encontrei dia desses nossa lista de filmes. Anotamos todos até o 59º no mínimo desde o início. “Sob os céus de Lisboa”, de Win Wenders, não foi o primeiro. Vou começar por ele porque está ligado a outras coisas coincidentemente. Gosto muito de Win Wenders, mas tenho a impressão de que ele se apaixonou por Teresa Salgueiro, quando ela era do Madredeus. O filme é para ela cantar apenas. O que já é muito. Do Madredeus, a música “Cuidado” serve para o meu agora. E diz um pouco sobre o sentimento de desamparo (basta trocar, no meu caso, amado por amada). Através do fado, que é destino, aquela coisa inevitável, grega, trágica, com as três bruxas, pitonisas, anunciando o que te tragará.

Cuidado

Não sei do meu amor
Não sei do meu amado
Não sei aonde foi…

Foi a chamar alguém,
Ali ao outro lado
Ai se calhar não vem…

- só tenho medo
Do grande mar
Cuidado!

Não sei do meu amor
Que misterioso fado
Ai que segredos tem…

- só tenho medo
Do grande mar,
Cuidado!

 

Cotidiano IX Setembro 17, 2008

Arquivado em: Silvia Viva — silviaribeiro @ 12:07 am
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Quando a Silvia ouvia o glãglãglã do mate Leão caindo no copo a metros de distância, ela dizia: também quero, gatinho (apesar de eu ser um um cão sarnento). Quando não percebia devido ao meu cuidado em ser silencioso, ela bebia todo o meu. Adorávamos mate. No começo do namoro chegamos a juntar um número imenso de rótulos de mate para a promoção que dava um Ford KA. Claro que não ganhamos nada. Mas, também, era um Ford KA. Piedade.

 

Cinzas e um dedinho de prosa Setembro 14, 2008

Arquivado em: Silvia Viva — silviaribeiro @ 8:47 am
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Dentro de algumas horas, estarei espalhando as cinzas de Silvia – quando há cinzas, temos a sensação de que o fogo apagou, mas elas podem permanecer quentes por muito tempo. A cerimônia será em um lugar bucólico. E pensei muito sobre dizer algo chegado o momento. Tenho aquela compulsão por dizer as coisas. Lembro de uma das primeiras coisas que disse para Silvia em nosso início de namoro e que a marcou. Foi “nariz de morango”. Não sei porque disse isto abraçado a ela na cama em minha choupana cruspiana. Era 1994. Mas aquilo teve um efeito devastador sobre ela. Acho que por eu admirar seu nariz, que era perfeito sem seguir os estereótipos. Eu sempre dizia. Sou homem de palavras. Não consigo me calar. E sinto falta dela me ouvir. Depois de treze anos, ela me ouvia da mesma maneira, com o mesmo olhar apaixonado. Como conseguíamos conversar tanto? Sempre tínhamos assunto. Em festas, eu preferia conversar com ela. Em qualquer lugar, eu preferia conversar com Silvia. Agora há pouco me lembrei de suas mãos e seus pés. Eram pequenos, com pequenos dedinhos, mãos de criança, delicadas. Adorava segurar suas mãos. Antes de Lorenzo, nossas mãos não se soltavam. Daí Lorenzo surgiu. Primeiro minhas mãos foram direcionadas a segurá-lo. Então minhas mãos e as de SIlvia se separaram. Logo em seguida, Lorenzo começou a andar. Logo ele ocupou o lugar central de nossas vidas retendo e separando nossas mãos. Mas, nos últimos tempos, com o crescimento de Lorenzo, nossas mãos começaram a se reencontrar. Foi há um ano, quando voltamos a nos namorar. O filho já dormia fora de casa. Ele é bem independente nesse aspecto. E eu acreditei que, enfim, voltaríamos àquele tempo de Crusp, em que eu descia (ou subia) até a cozinha do andar para buscar água para ela no meio da noite. Ela sempre dizia que sentia falta disso. Eu também, apesar de não admitir. Nossa vida era simples. Não tinha uma lista imensa de contas a pagar. E um mundo de tarefas a cumprir. O cotidiano pode nos matar. E conseguíamos driblar essas armadilhas do sistema para nos tornar gado mugente. Hoje pela manhã eu não direi nada. Quero ser atravessado pelo silêncio. O que eu tenho a dizer digo todos os dias a ela, sabendo que ela pode não me ouvir. Mas eu sou assim: falo, falo e falo. E hoje está chovendo. Bastante. E isto já diz tudo.

 

Marcelo Ruis

 

Deus e o diabo na terra Setembro 11, 2008

Arquivado em: Silvia Viva — silviaribeiro @ 2:50 pm
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Uma folha. Ela é verde. Sim. É verde. Costumamos não questionar. Mas ela pode ser azul e amarela. Sim, ninguém se oporia a isso. A representação de uma folha também pode ser feita compondo azul com amarelo. E a folha não seria verde. Assim como daltônicos veriam a folha como sendo vermelha. Ou não distinguiriam entre uma e outra cor.

Se a Silvia está ou não no céu, ou em outro plano, ou apenas virou pó e retornou ao chão, não vai alterar minha vida. Ela está viva em mim. E em cada resíduo de humanidade que ela tenha deixado.

 

Marcelo

 

Cotidiano VIII Setembro 9, 2008

Arquivado em: Silvia Viva — silviaribeiro @ 12:24 pm
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Eu sempre dizia: Vai lá, Si, pergunta para o cara/moça… Afinal, sou homem, e homens não perguntam.

Quando viajávamos, ela era minha intérprete. Afinal, ela era trilíngüe.

 

Flash IV Setembro 7, 2008

Arquivado em: Silvia Viva — silviaribeiro @ 10:39 pm
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Aniversário do Lorenzo. Fomos pra sua casa munidos de Francisco e presente. Mas chegamos um dia antes rsrsrsrrss. “É amanhã”. Visita inesperada na casa de vocês era recebida do mesmo jeito. Conversamos um monte na sala enquanto Francisco subia em tudo e Lorenzo assistia cocoricó. Vocês tinham que buscar o brigadeiro mas insistiram pra gente ficar. “É aqui do lado”. A Silvia era a mais insistente. “Não, amanhã a gente volta. Eu sei o trabalho que festa dá.”
Se pudéssemos prever as peças que a vida prega teríamos voltado no dia seguinte e em todos os outros.
Carla