Silvia adorava comida japonesa. E, próximo à escola em que dava aulas, havia um modesto restaurante, justo e com algo de japonês. Todos os dias acomodava-se no mesmo lugar. Gostava de um determinado cantinho. Certa feita, ela decidiu mudar. Por algum motivo sentou-se em outra mesa. Justamente naquele dia o teto de vidro e ferro do restaurante desabou sobre o assento predileto de minha esposa. Ela sentiu o bafo da morte roçar-lhe o pescoço. Olhei aliviado para ela, à época, por saber que a Morte passara ao seu lado, dera uma piscadela marota e seguira em sua tarefa, em verdade. Ironia. Foi em 2007. Hoje Lorenzo vai para o quinto exemplar de Asterix. Está devorando. São corajosos aqueles gauleses. Mas só temem uma coisa: que o céu caia sobre suas cabeças.
Doenças urbanas – parte I Maio 18, 2009
Eu odeio automóveis. Há alguns anos, Silvia andava naqueles ônibus barulhentos, idem internamente, de São Paulo. Eu ligava para ela e mal a ouvia. Com o tempo sua audição foi piorando. Também Silvia arrastava consigo uma quantidade inumerável de livros. E me preocupava com o que aquela tortura poderia causar-lhe a longo prazo. Procuramos ter um automóvel.
Lemon pepper e pimenta rosa Maio 14, 2009
Ontem meu compadre Leo bateu a minha porta lá pelas tantas, pedindo panelas para um preparado no nosso escritório, a Laika, que fica ao lado de casa e ainda estava em atividade (impressões de gravuras, música e mais outras coisas). Eu e Lorenzo estávamos no nosso ritual noturno de final de noite. Lá pelas outras tantas Leo chegou com duas cumbucas contendo pasta com ingredientes levados de casa. Ingredientes estes que Silvia usava com maestria e que ficaram ali adormecidos, como lemon pepper e pimenta rosa. Comi feito um glutão. Lorenzo não gosta de abobrinha, um dos componentes da fórmula, e Leo disse que era zucchini, uma abobrinha italiana. No engodo, Lorenzo comeu com gosto. Estava sublimemente saboroso. Aquele preparado funcionou como um bolinho proustiano, e a memória de Silvia tomou conta de mim, a forma despretensiosa que ela cozinhava e o resultado no nosso paladar. Algumas panelas perderam quase a razão de ali estarem penduradas. Vê-las em uso daquela maneira foi um ritual de elogio a minha esposa. Despretensioso.
Aniversário Maio 7, 2009
Silvia completaria 36 anos no dia 24 de abril. Como lembrou bem o Sérgio, ela não irá envelhecer. E eu não a verei banguela, reumática e surda ao meu lado, igualmente. Planejei muito tal cena. Que seja. Na noite do dia 24 para o dia 25, sonhei com ondas maremóticas. Estranho: uma praia que era em São Paulo; às costas dela, Rio de Janeiro. E apenas uma pequena faixa de terra separando-as. Nunca viajamos para o Rio. Passei a trabalho, transitando. Enfim, os maremotos vinham de duas praias. Para Silvia, que adorava esses eventos apoteóticos da Natureza, duas ondas encontrando-se dessa maneira seriam realmente um espetáculo.
Escolha Maio 6, 2009
Lorenzo diz que me ama. Bem, primeiro porque eu sou “legal”. Quer dizer, faço piadas o tempo todo. Segundo, porque escolhi Silvia. Eu o corrigi: ela me escolheu.