Karla, lembrei de você esses dias. Eu sei o quanto ela gostaria de levar adiante um projeto pedagógico contigo. Eu sei o muito que ela te admirava e o quanto se orgulhava de tê-la como amiga, o quanto era grata por você ter sido amiga e mentora que lhe abriu a mente para a missão de ser professor. Eu compartilhava todos os sonhos possívieis e impossíveis da Silvia, o desejo de ser uma mentora de aulas, criá-las , ministrar cursos sobre como dar aulas apaixonantes, inventar maneiras de os alunos se apaixonarem mais e mais pelo que era ensinado, daí todas as estratégias, os livros, as transparências, as imagens buscadas na web ou apenas escaneadas, livros de banco de imagem que ela herdou de mim, em que eu via apenas papel a ser reciclado enquanto, para Silvia, era um mundo de imagens/imaginação. Tudo isso e mais, pois, em casa, esbarro em pendrives carregados de esboços, aulas, imagens, tanta coisa que ela armazenava. Ou quando enfim precisei organizar o mundo de papel que ocupava nossa edícula – talvez para encontrar algo a mais dela para preencher meu vazio, aulas que ela esquecera após passar a noite em claro há tempos preparando-as, esquecidas no fundo, lá no fundo, feitas com carinho, porém únicas, tão únicas que nunca mais poderiam ser aproveitadas novamente. Eu organizaria e reaproveitaria conforme as situações. Silvia sempre, sempre, reinventava uma nova aula. Antes de falecer ela deixou a apostila do curso de alemão para o Colégio Imperatriz Leopoldina, feita por ela, um trabalho insano, acredito. Foi sua última tarefa. A Valéria me entregou um exemplar. Espero que você um dia possa me traduzir aquilo (riso). A Silvia não sabia fazer nada sem muita paixão e muito sonho. Ela deu aula de alemão no ensino público em um projeto do Estado de São Paulo em meados dos anos 90. Era nos cafundós da zona leste da cidade. O salário? Não importava. O projeto acabou (foi para a Covas). Mas tenho certeza que ela contaminou muitas crianças com essa paixão pelo saber. Sinto falta do jeito ingênuo de ela acreditar na viabilidade das coisas, de se dedicar a causas impossíveis mesmo por pouco dinheiro. Hoje sou mais sonhador porque perdi alguém que sonhava comigo. Porque tenho que preencher esse vazio onírico com um esforço sobrehumano.
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sabe, marcelo, perder a silvia foi um baque tao grande, que eu passei um tempao – qause dois anos? – sem nem conseguir falar nisto. me vi de repente tao perdida, um pedaco de mim se foi. e um sentimento egocentrico e tenho vergnha. vergonha de lamentar tanto, tanto a falta dela e nem ter espaco pra pensar coisas que as pessoas falam, tao jovem, e o lorenzo, e o marcelo…este tipo de racionalidade nao tem espaco em mim. sinto uma dor imensa e nao consigo ser generosa.
durante todo este tempo nao falei contigo pq nao sabia o que te dizer, nao tinha nada pra te dar, nem um consolo, nem uma energia positiva, nada, nada. e nao achava justo te pedir ajuda – por que era isto que eu teria feito.
e mesmo agora, nao acho justo te escrever isto. deveria te dar algo de bom. ou ficar quieta, como fiz ate agora. mas estou precisando falar estas coisas, desculpa. marcelo, nao passa um dia em que nao pense nela. no inicio, esquecia que ela nao estava mais aqui, me pegava pensando, esta eu preciso contar pra silvia, isto eu vou perguntar pra silvia. ela era a realizadora, a mais pe no chao, aquela que dava o primeiro passo, fazia dos sonhos pelo menos uma possibilidade, um plano em que se trabalhar. e tudo simples assim, facinho.
eu nao sabia mesmo o quanto ela me levava a serio. so tinha a sensacao de que ela me entendia e me dava muita coragem.
Conheci o blogdevida so hoje e confesso que li tudo em um intante. Que coisa mais linda a sua sensibilidade! Continue escrevendo, assim a imagem de Silvia nao se perdera de vc e do Lorenzo. Adorei, do fundo da minha alma, meus parabens!
Um beijo,
Ana (Brasilia-DF).
Os anjos se encontram.
O meu se foi há 16 anos.
Tinha sómente 18,quase 19.
Ao me ver em prantos,foi ao
encontro dos motivos que me deixaram
assim aqui e no ‘cerumano’.
Mágicas do Universo!!!
Silvia e Karla sao as grandes responsaveis pela primeira sementinha do ensinar em mim. Grandes formadoras! Transmissoras dessa paixao.
Sou muito, muito grata!