Chegamos às 14h e uns quebrados. Estacionamos em frente à faculdade. O edíficio está em reforma. Tapumes por todos os lados, paredes encardidas revelavam que nossa faculdade é realmente um gueto de resistência. Seguimos pelo corredor até a sala 103, uma sala de esquina com vista para a Praça do Relógio. Decepção. A sala estava lacrada. Ali nos encontramos pela primeira vez, eu e Silvia. Minha intenção era apresentar ao Lorenzo. Seguimos adiante. Apresentei a ele a biblioteca. Reformada. Levantei-o e perguntei ao moço no balcão: “ele pode conhecer a biblioteca”? Pelos corredores, Lorenzo disse: “quantos livros velhos”. Livros são velhos. E ficou empolgado com aquela velharia. Passamos por uma banca de livros e ele me pediu um livro bem grande para ele aumentar seu vocabulário. Conduzi-o a comprar “Werther”, de Goethe. Conveniente. Pela história de amor e a relação com a língua alemã (mesmo que em tradução), a qual Silvia lecionava. Mas terei de decifrar muitas palavras para ele entender a história. Levei-o em seguida ao local onde eu e Silvia nos beijamos pela primeira vez, há quase 15 anos, no mês de agosto, numa tarde de inverno também. O gramado entre a reitoria e a História estava tomado por um novo edifício, uma nova biblioteca, acho que para receber a doação de 45.000 volumes da biblioteca pessoal de José Mindlin. Caspita! Outra obra de concreto sobrepondo-se a minha história. Lorenzo adorou a praça do relógio. Queria jogar bola. Lembro de quando a USP era pública e as pessoas podiam aproveitar aquela praça aos domingos. Eu disse a ele: “vamos ao Mac”? Ele, como toda criança, gosta do sabor de batatas fritas. E mostrei a ele: o MAC, Museu de Arte Contemporânea. Entramos. Grátis. Vimos muitas obras modernistas, algo relacionado aos franceses. Ele gostou muito de “Expansão controlada”, de César Baldaccini. Quase um paradoxo. Aliás, vê-se aí uma alegoria do nosso estado de coisas. Havia também uma mostra de arte contemporânea. Coisas feitas por mulheres. Um vídeo de uma espanhola típica ao som de música flamenga espetando-se sobre o vestido branco. Sangrava. Alguma crítica às touradas. Talvez. Tentei explicar a Lorenzo, que ficou intrigado. Um frio cortante me fez desistir da aventura até o CRUSP. Enfim. Pegamos o carro. Fizemos uma parada no Mac Donald’s. Engolimos a gororoba. Tal e qual fazíamos eu e Silvia em nosso tempo de bandeijão.
Nove horas e trinta e um minutos agosto 12, 2009
Acordei às 8h40 e alguma coisa. Ansioso pelas badaladas que indicariam aquele instante impreciso do fim. Estava a romper o círculo, pois estava prestes a se fechar, retomando seu curso mais acelerado na órbita já memorizada, que me expulsará com o tempo para fora de si, tal a velocidade agregada a cada trajeto. Rodopio para o próximo ano. Enquanto me vestia, refletia vagamente, desconexo e desconhecido de mim. Quando despertei para o relógio, anotei 9h31. O primeiro minuto de um novo círculo. Aos poucos vou para longe dele. Nostalgicamente.
Que o céu caia sobre nossas cabeças maio 18, 2009
Silvia adorava comida japonesa. E, próximo à escola em que dava aulas, havia um modesto restaurante, justo e com algo de japonês. Todos os dias acomodava-se no mesmo lugar. Gostava de um determinado cantinho. Certa feita, ela decidiu mudar. Por algum motivo sentou-se em outra mesa. Justamente naquele dia o teto de vidro e ferro do restaurante desabou sobre o assento predileto de minha esposa. Ela sentiu o bafo da morte roçar-lhe o pescoço. Olhei aliviado para ela, à época, por saber que a Morte passara ao seu lado, dera uma piscadela marota e seguira em sua tarefa, em verdade. Ironia. Foi em 2007. Hoje Lorenzo vai para o quinto exemplar de Asterix. Está devorando. São corajosos aqueles gauleses. Mas só temem uma coisa: que o céu caia sobre suas cabeças.
Doenças urbanas – parte I maio 18, 2009
Eu odeio automóveis. Há alguns anos, Silvia andava naqueles ônibus barulhentos, idem internamente, de São Paulo. Eu ligava para ela e mal a ouvia. Com o tempo sua audição foi piorando. Também Silvia arrastava consigo uma quantidade inumerável de livros. E me preocupava com o que aquela tortura poderia causar-lhe a longo prazo. Procuramos ter um automóvel.
Lemon pepper e pimenta rosa maio 14, 2009
Ontem meu compadre Leo bateu a minha porta lá pelas tantas, pedindo panelas para um preparado no nosso escritório, a Laika, que fica ao lado de casa e ainda estava em atividade (impressões de gravuras, música e mais outras coisas). Eu e Lorenzo estávamos no nosso ritual noturno de final de noite. Lá pelas outras tantas Leo chegou com duas cumbucas contendo pasta com ingredientes levados de casa. Ingredientes estes que Silvia usava com maestria e que ficaram ali adormecidos, como lemon pepper e pimenta rosa. Comi feito um glutão. Lorenzo não gosta de abobrinha, um dos componentes da fórmula, e Leo disse que era zucchini, uma abobrinha italiana. No engodo, Lorenzo comeu com gosto. Estava sublimemente saboroso. Aquele preparado funcionou como um bolinho proustiano, e a memória de Silvia tomou conta de mim, a forma despretensiosa que ela cozinhava e o resultado no nosso paladar. Algumas panelas perderam quase a razão de ali estarem penduradas. Vê-las em uso daquela maneira foi um ritual de elogio a minha esposa. Despretensioso.
Aniversário maio 7, 2009
Silvia completaria 36 anos no dia 24 de abril. Como lembrou bem o Sérgio, ela não irá envelhecer. E eu não a verei banguela, reumática e surda ao meu lado, igualmente. Planejei muito tal cena. Que seja. Na noite do dia 24 para o dia 25, sonhei com ondas maremóticas. Estranho: uma praia que era em São Paulo; às costas dela, Rio de Janeiro. E apenas uma pequena faixa de terra separando-as. Nunca viajamos para o Rio. Passei a trabalho, transitando. Enfim, os maremotos vinham de duas praias. Para Silvia, que adorava esses eventos apoteóticos da Natureza, duas ondas encontrando-se dessa maneira seriam realmente um espetáculo.
Escolha maio 6, 2009
Lorenzo diz que me ama. Bem, primeiro porque eu sou “legal”. Quer dizer, faço piadas o tempo todo. Segundo, porque escolhi Silvia. Eu o corrigi: ela me escolheu.
Narciso abril 17, 2009
Um dia compramos uma câmera digital. Filmamos muito. E tudo ficou arquivado lá no limbo das fitas. Estou resgatando. Numa das sequências, Silvia e Lorenzo interagindo, no quarto dele, conversando, ele com seus 2 anos ainda, mas já falante. Lorenzo ficou hipnotizado pela auto-imagem no LCD invertido da câmera, olhando para si. Silvia disse: “Ô, menino narcisista”. A coisa do espelho d’água, da própria imagem refletida, ou a descoberta de si mesmo. Mas o comentário de Silvia era certeiro. Porque ele ficou desesperado, devorado por si mesmo, não propriamente pela beleza, muito mais pelo outro eu.
Siga o coelho março 25, 2009
Silvia espalhava os ovos pela casa. Lorenzo tinha que descobri-los através das pistas deixadas pelo coelho. Lorenzo lembrou especificamente de 2007, uma tradição que Silvia criou para ele, encontrar os ovos de chocolates. Começo a perceber nele essa saudade. Hoje ele me disse que me ama porque eu cuidava bem dela. E também elaborou uma teoria mágica de prepararmos cartões de aniversário, mãe e namorados para Silvia e encarregarmos o vento de levar até sua alma. E de Heitor também. Lorenzo pensou um pouco mais e imaginou enviarmos por avião de papel. São hipóteses. O coelho corre atrasado. E o seguimos simplesmente.
Os códices digitais fevereiro 16, 2009
Pratiquei orkutcídio há tempos. Escrevi, logo no início, um testemunho para ela – o primeiro em 22.06.2004, sobre Heitor e como nos sentíamos sobre isso, e o segundo em 30.11.2004 –, que hoje parecem palavras de um fantasma, escondido, velado, sem face. Lembro do termo testemunho em Filologia. O professor Heitor Megale contou – posso estar enganado – que um filólogo encontrou algo de Cícero (o orador, não o Padre) utilizado como base para a capa de um livro do século XV, por aí. O sujeito sentiu o cheiro da coisa, um sentimento de que tinha algo estranho naquela capa de livro sobre um tema prosaico, e que, ali escondido, tinha algo de extremo valor. Foi um sufoco para conseguir autorização para desmembrar documento tão antigo. E ele acertou. Tinha algo lá de Cícero. Acho que Pro Archia. Não era um autógrafo, mas um apógrafo. Mas era Cícero. Claro, meu testemunho para Silvia não é nenhum Cícero. Mas ela valia mais do que as bibliotecas do Tombo e de Alexandria multiplicadas ao infinito. Seguem minhas palavras:
“A Silvia parece uma onda de 40 metros vista da praia: distante no horizonte parece apenas um risco. Mas, à medida que se aproxima de nós, percebemos sua grandiosidade. Ao se aproximar, é avassaladora e nos surpreendente com sua grandiosidade (apesar de nanica). Ela é apaixonada por catástrofes: ondas gigantes, tornados e coisas assim. Um paradoxo, pois ela é a delicadeza em forma de gente. Mas como insinuei, a Silvia é uma onda de 40 metros: magneticamente apaixonante, nos hipnotizando com sua beleza, forma e energia.”