Blog de Vida

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Gestos agosto 12, 2015

Filed under: Silvia Viva — marceloruis @ 2:18 pm

Hoje completamos 7 anos de ausência de Silvia. Tempo. O tempo vai acomodando a história em camadas, sobrepondo uma sobre a outra. Aos poucos, tudo se sedimenta, são vestígios soterrados, cicatrizes subterrâneas. Desenterrar essas camadas! E encontrar fragmentos de quem fomos. Alguns dias atrás, olhava para fotografias de outrora e me deparava com o registro de gente com quem perdi os laços, gente que vive no subterrâneo da minha memória. E refleti sobre meu presente, sobre o fato de representar hoje uma outra persona, divergentemente daquele rapaz de vinte e tantos anos. Cavoucar e encontrar vestígios. E não se encontrar mais ali. Ou não se reconhecer. Ou olhar com complacência para aquele jovem, tentar um diálogo. É impossível dialogar com jovens passados. Esqueça. O único vestígio que me traz alegria é da minha amiga (que reconhecia cada enunciado das expressões de meu rosto). Acho que esses gestos que não vemos, do nosso rosto, trata-se de algo que não nos pertence mesmo. Pertencem a alguém que saiba decifrá-los. Teoria tola de que são gestos que não nos pertencem, dos quais pouco compreendemos. Outro alguém, se se interessar em estudá-los, pode saber muito sobre o que nós mesmos não sabemos. Esses gestos faciais, esses movimentos musculares reverberando na pele, não nos pertencem, se transformam e nos causam uma sensação de desconexão com o derramar do tempo. Voltarmos a nossas fotos é como olhar para si mesmo conforme o outro nos olhava. Teoria tola. Volto para as fotos e não me reconheço mais ali. No entanto, reconheço Silvia. Assim como ela sabia sobre meus gestos, eu também lia cada movimento de olhos, de bochechas, lábios, e interpretava e compreendia, sem que uma palavra fosse expelida de sua boca. Essas camadas ali deixadas, que cavouquei e encontrei recentemente, deveriam ficar por ali mesmo? Lorenzo, até algum tempo atrás, insistia que seria arqueólogo. Por alguns bons anos ele repetiu isso: seria arqueólogo. Ele escreve com a propriedade incomum para um menino de 11 anos. E constrói histórias incríveis, ou seja, ele cavouca também. Constantemente pergunta sobre como foi, como era, fixa-se nos detalhes, procura as camadas. Essa fixação por contar e cavoucar histórias está nele. Todavia, não enxergo nele uma vontade expor na sala de casa esses vestígios em um pedestal. Seria mais como uma poesia épica, na epopeia grega. Na Grécia antiga, o aedo, o poeta, durante o banquete, ficava encarregado de trazer aos presentes um relato, forma de presentificar seus heróis e seus feitos, e assim trazer ao banquete os antepassados daquele clã, daquele genos, elogiando seus valores, ensinamentos, a vida exemplar dos heróis que já tomaram o caminho do Hades e que habitam o mundo do não-ser. Ao presentificar o herói, o aedo trazia as camadas soterradas pelo tempo. O exemplo dos antepassados serviria como um sopro de consciência, um sopro forte que empurrava o clã adiante. Enfim, devemos olhar com orgulho para os vestígios de nossos heróis antepassados. Heróis de grandes feitos? Heróis em derrotas? Bem, vai outra teoria tola: sobretudo na fraqueza, tiramos alguma lição; sobretudo na fraqueza que passou, podemos acreditar que sobrevivemos e sobreviveremos.

 

dezembro 3, 2010

Filed under: Silvia Viva — marceloruis @ 1:13 pm

Salinidade

Água rebenta

Dissolve

Os cristais

Rebenta saudade

 

Mais um dia agosto 13, 2010

Filed under: Silvia Viva — marceloruis @ 1:26 am

Resgatei Scotland Yard. Sabe aquele jogo em que você tem que juntar pistas e responder às perguntas dos casos mais esdrúxulos? Você passeia por Londres recolhendo pistas. E volta para a casa do Holmes para solucionar o caso, que significa, basicamente, responder às questões assassino, arma e motivo. Cada caso era uma história mais maluca e inverossímil do que a anterior. Eu e Silvia jogamos a primeira partida em 1995, exatamente no dia 19 de agosto, às 23h23 (terminamos ou começamos, não sei). Como sei o que sei? Anotamos nas fichas data, hora, participantes e vencedor. Sim. Para não nos confundirmos com os casos e jogarmos por mais de uma vez. Viciamos no jogo. No dia 20 de agosto, temos: jogo 1: Silvia* e eu, às 15h04; jogo 2: Silvia, eu* e Goober+, às 15h48; jogo 3: Silvia, eu e Goober, às 16h45; jogo 4: SIlvia+, eu+, Júlio+ e Goober+, às 18h23; jogo 5: Silvia, eu+, Júlio e Goober*, às 22h26; jogo 6: Silvia+, eu, Goober*, Frozô e Júlio, às 23h35; jogo 7: Silvia e eu, às 0h01; jogo 8: Silvia e eu*, às 0h35. Pois bem, asteriscos indica o vencedor; +, quem arriscou e errou. Jogamos por quase 12 horas ininterruptas. Silvia era fã de Agatha Christie. Inverterada. Eu gostava bastante de Sherlock Holmes (apesar de preferir Edgar Allan Poe). Semana passada eu e Lorenzo jogamos uma partida, exatamente no dia 8 de agosto das 22h00 às 22h50. Ele com seus seis anos. Há quase quinze anos, eu jogava com sua mãe e fizemos embates históricos, como certa feita que eu precisava de qualquer número para chegar à casa de Holmes e resolver as questões do caso. Mas era vez a de Silvia e ela precisava de, no mínimo, 4 no dado. E assim foi. Ela entrou na casa de Sherlock e resolveu o caso. A última vez que jogamos, pelo que consta, foi no dia 17 de dezembro de 2.000. Não sei quem ganhou. No computo geral, venci 13 e Silvia, 11. Mas temos 3 partidas sub judice. Qual seria o placar final? Sei que não houve empate entre nós. Os dois venceram. Detalhe: assim como a mãe, Lorenzo é alucinado por jogos de tabuleiro.

 

Para Karla Bley junho 1, 2010

Filed under: Silvia Viva — marceloruis @ 9:18 pm
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Karla, lembrei de você esses dias. Eu sei o quanto ela gostaria de levar adiante um projeto pedagógico contigo. Eu sei o muito que ela te admirava e o quanto se orgulhava de tê-la como amiga, o quanto era grata por você ter sido amiga e mentora que lhe abriu a mente para a missão de ser professor. Eu compartilhava todos os sonhos possívieis e impossíveis da Silvia, o desejo de ser uma mentora de aulas, criá-las , ministrar cursos sobre como dar aulas apaixonantes, inventar maneiras de os alunos se apaixonarem mais e mais pelo que era ensinado, daí todas as estratégias, os livros, as transparências, as imagens buscadas na web ou apenas escaneadas, livros de banco de imagem que ela herdou de mim, em que eu via apenas papel a ser reciclado enquanto, para Silvia, era um mundo de imagens/imaginação. Tudo isso e mais, pois, em casa, esbarro em pendrives carregados de esboços, aulas, imagens, tanta coisa que ela armazenava. Ou quando enfim precisei organizar o mundo de papel que ocupava nossa edícula – talvez para encontrar algo a mais dela para preencher meu vazio, aulas que ela esquecera após passar a noite em claro há tempos preparando-as, esquecidas no fundo, lá no fundo, feitas com carinho, porém únicas, tão únicas que nunca mais poderiam ser aproveitadas novamente. Eu organizaria e reaproveitaria conforme as situações. Silvia sempre, sempre, reinventava uma nova aula. Antes de falecer ela deixou a apostila do curso de alemão para o Colégio Imperatriz Leopoldina, feita por ela, um trabalho insano, acredito. Foi sua última tarefa. A Valéria me entregou um exemplar. Espero que você um dia possa me traduzir aquilo (riso). A Silvia não sabia fazer nada sem muita paixão e muito sonho. Ela deu aula de alemão no ensino público em um projeto do Estado de São Paulo em meados dos anos 90. Era nos cafundós da zona leste da cidade. O salário? Não importava. O projeto acabou (foi para a Covas). Mas tenho certeza que ela contaminou muitas crianças com essa paixão pelo saber. Sinto falta do jeito ingênuo de ela acreditar na viabilidade das coisas, de se dedicar a causas impossíveis mesmo por pouco dinheiro. Hoje sou mais sonhador porque perdi alguém que sonhava comigo. Porque tenho que preencher esse vazio onírico com um esforço sobrehumano.

 

março 29, 2010

Filed under: Silvia Viva — marceloruis @ 6:28 pm
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1995. Íamos à lanchonete do DCE-USP apenas para tomarmos Matte Leão. Silvia me introduziu nesse vício. Mas eu sempre gostei de chimarrão, desde menino, apesar de não ser gaúcho, e resgatei algo com o Matte Leão, apesar de ser gelado, como no Paraná com seu tereré. Então foi uma adequação cultural. E tomávamos mate. E juntávamos os lacres dos copos para a promoção que dava um Ford K. Concluímos que éramos dos poucos loucos a tomar aquela bebida, que ainda era raro encontrar pelas lanchonetes. A lanchonete do DCE era horrível, tudo o que deveria ser quente era frio, e vice-versa, além do péssimo atendimento. Frequentávamos apenas pelo Matte Leão. Estávamos convictos de que ganharíamos a promoção. Sempre fomos ingenuamente sonhadores quando juntos. Estávamos também enganados quanto à promoção. Mas sinto falta de planejar coisas ingênuas e absurdas com a Silvia.

 

De volta ao ovo agosto 13, 2009

Filed under: Silvia Viva,Uncategorized — marceloruis @ 7:28 pm
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Chegamos às 14h e uns quebrados. Estacionamos em frente à faculdade. O edíficio está em reforma. Tapumes por todos os lados, paredes encardidas revelavam que nossa faculdade é realmente um gueto de resistência. Seguimos pelo corredor até a sala 103, uma sala de esquina com vista para a Praça do Relógio. Decepção. A sala estava lacrada. Ali nos encontramos pela primeira vez, eu e Silvia. Minha intenção era apresentar ao Lorenzo. Seguimos adiante. Apresentei a ele a biblioteca. Reformada. Levantei-o e perguntei ao moço no balcão: “ele pode conhecer a biblioteca”? Pelos corredores, Lorenzo disse: “quantos livros velhos”. Livros são velhos. E ficou empolgado com aquela velharia. Passamos por uma banca de livros e ele me pediu um livro bem grande para ele aumentar seu vocabulário. Conduzi-o a comprar “Werther”, de Goethe. Conveniente. Pela história de amor e a relação com a língua alemã (mesmo que em tradução), a qual Silvia lecionava. Mas terei de decifrar muitas palavras para ele entender a história. Levei-o em seguida ao local onde eu e Silvia nos beijamos pela primeira vez, há quase 15 anos, no mês de agosto, numa tarde de inverno também. O gramado entre a reitoria e a História estava tomado por um novo edifício, uma nova biblioteca, acho que para receber a doação de 45.000 volumes da biblioteca pessoal de José Mindlin. Caspita! Outra obra de concreto sobrepondo-se a minha história. Lorenzo adorou a praça do relógio. Queria jogar bola. Lembro de quando a USP era pública e as pessoas podiam aproveitar aquela praça aos domingos. Eu disse a ele: “vamos ao Mac”? Ele, como toda criança, gosta do sabor de batatas fritas. E mostrei a ele: o MAC, Museu de Arte Contemporânea. Entramos. Grátis. Vimos muitas obras modernistas, algo relacionado aos franceses. Ele gostou muito de “Expansão controlada”, de César Baldaccini. Quase um paradoxo. Aliás, vê-se aí uma alegoria do nosso estado de coisas. Havia também uma mostra de arte contemporânea. Coisas feitas por mulheres. Um vídeo de uma espanhola típica ao som de música flamenga espetando-se sobre o vestido branco. Sangrava. Alguma crítica às touradas. Talvez. Tentei explicar a Lorenzo, que ficou intrigado. Um frio cortante me fez desistir da aventura até o CRUSP. Enfim. Pegamos o carro. Fizemos uma parada no Mac Donald’s. Engolimos a gororoba. Tal e qual fazíamos eu e Silvia em nosso tempo de bandeijão.

 

Nove horas e trinta e um minutos agosto 12, 2009

Filed under: Silvia Viva — marceloruis @ 8:39 pm
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Acordei às 8h40 e alguma coisa. Ansioso pelas badaladas que indicariam aquele instante impreciso do fim. Estava a romper o círculo, pois estava prestes a se fechar, retomando seu curso mais acelerado na órbita já memorizada, que me expulsará com o tempo para fora de si, tal a velocidade agregada a cada trajeto. Rodopio para o próximo ano. Enquanto me vestia, refletia vagamente, desconexo e desconhecido de mim. Quando despertei para o relógio, anotei 9h31. O primeiro minuto de um novo círculo. Aos poucos vou para longe dele. Nostalgicamente.